quarta-feira, 24 de março de 2010

Recomeços

Era uma pessoa que nunca quis se relacionar. Não achava a mulher certa, e queria que fosse aquela que seria para sempre. Utopia, pensa hoje, mas na época não enxergava assim. Enxergava certeza onde existia ingenuidade. Até que, em um certo momento, inevitavelmente, se envolveu. Viveu a certeza durante um bom tempo. Se achava imune a qualquer crise, pela cumplicidade que haviam construído. Mas com o tempo vieram os desgastes, ela reclamando, ele escutando sem ouvir. Se desgastaram. Mas não se separaram. Tentaram algumas vezes, mas voltavam sempre. Até que, em uma dessas voltas, começaram mal, e depois melhoraram. Em uma discussão posterior, surge a revelação: naquele começo ruim, ela o traiu com o ex-namorado, que ela sempre falava que o relacionamento havia terminado por total desgaste, e inclusive haviam saído juntos algumas vezes. Isso fez com que ele, independente de qualquer coisa, perdesse a confiança nela, mesmo não terminando, por ter ficado sem reação. Claro, o destino foi o fim.

Neste meio tempo, em um dos términos, ele, voltando a sair com os amigos, conheceu uma mulher nova, amiga das amigas dele. A princípio, só se conheceram, pois ele tinha seu pensamento focado em reatar o namoro. Quando reatou, por estar ruim, começou a sair com os amigos, sem a namorada, e se aproximou, de forma natural, dela, por se identificarem bastante, em diversos pontos. Conversavam quando se encontravam ou pela internet durante a semana. Não ficavam mais de 2 dias sem se falarem, quer fossem assuntos triviais ou mais sérios, sobre opiniões e pontos de vista sobre determinada coisa. Ele foi percebendo que sentia falta dela. de conversar com ela, de encontrá-la, e ela mexia com ele, de uma maneira que nenhuma outra mexia. Logo percebeu que o término do relacionamento dele era tão certo quanto a falta que ele sentia de falar com ela. Como estar com uma pessoa quando se sente falta de outra? Se o relacionamento dele tinha chegado até aquele ponto, era porque isso não havia acontecido. Agora, com tantas crises, e mais isto, era certo o fim.

Pensou se aquilo não estava acontecendo por ele estar com o seu relacionamento ruim. Viu que não, pois mesmo que estivesse bom, ela mexeria com ele, mas sem saber explicar porque. Ele não sabia explicar, mas nem a namorada dele, quando ainda não era, mexia dessa maneira. Terminou o namoro.

De início, pensou que precisava mostrar pra ela que não tinha volta mesmo, como da outra vez, quando a conheceu. Pensou que não ia precisar revelar o motivo, visto que ainda se sentia mal com aquilo, mas mostrar seria suficiente. As amigas o chamaram pra conversar pra dizer que o sentimento era recíproco. Falavam com ele, falavam com ela. Porém, a ex procurava ele. E ele sempre que tinha contato com ela, se lembrava da traição, que mexeu com traumas que ele tinha. Isso fez com que ele não tivesse condições de conversar com ela tudo que queria. Ele, então, viu que precisava de um tempo pra ele, pois não estaria 100% pra tentar começar um relacionamento com ela como ele gostaria. Afinal, ela não era qualquer uma que você beija numa noite e depois não significa nada. Ele não ia suportar beijá-la e não estar 100%, da maneira que ele sabia que ela merecia. Preferiu ter um tempo pra ele, mesmo sem perder contato, pra poder zerar tudo e se dedicar a ela da maneira que ela merecia. Tentou até uma vez contar pra ela o que havia acontecido, mas não conseguiu, travou na hora.

O tempo foi passando e, de repente, ela ficou mais fria. Não conversavam mais sozinhos quando se encontravam. Durante a semana, não conversavam nem pela internet, e quando ele puxava assunto, a sentia fria. Foi ficando triste com isso, mas sabendo que era uma possível consequência de sua escolha. Até que, no fim do ano, passaram juntos na casa de uma amiga em comum. Ele foi na defensiva, se cumprimentaram e interagiram um pouco. No segundo dia do ano, ele a viu na internet e resolveu chamá-la pra praia. Ela aceitou, chamou uma amiga e foram com outros amigos também. Foi tudo ótimo, combinaram de saírem juntos de noite, ele fez de tudo pra ela ir, pra ir a amiga que ela queria, até um amigo que não tinha como voltar, e queria ir porque a namorada estava ocupada.

Chegando lá, não ficaram juntos em nenhum momento. Para piorar, ele a viu conversando com outro cara e apareceu um ciúmes também. Ele sabia que não podia falar nada, mas, obviamente, se sentiu mal por isso e logo foi embora.

No dia seguinte, ela puxou papo com ele pela internet. Ele foi seco. Ela o respeitou. Ele passou a só cumprimentá-la. Ele pensou que precisava se afastar pra não mais se sentir mal. Puro mecanismo de defesa, reconhece hoje. Foi seco, foi grosso, de uma maneira exatamente oposta à sua real vontade. Se traía, traía seu próprio desejo, com suas atitudes. Postura de fim, quando o desejo era de início. Até que ele viu que era inútil isso. Não conseguia esquecê-la, e só a afastava mais, na pior distância que existia, a que não é física.

Foi tentando uma reaproximação. Resolveu, em sua cabeça, a questão da traição, zerou tudo es hoje está da maneira que julga ideal, como gostaria de estar lá atrás, quando terminou. Mas não sabia como minimizar os danos feitos pelo seu afastamento e por todas essas atitudes erradas. Conversou com uma amiga em comum, e ela lhe falou algo que ele guardou pra sempre. Ele comentou que não tinha cabeça pra tomar a iniciativa, por estar se sentindo, na falta de melhor palavra, um merda. E sua amiga disse pra ele "pensa que ela é uma mulher linda, responsável, direita, como praticamente não existe por aí. E que qualquer homem adoraria ficar com ela. E ela quis você, mesmo que não queira agora. Mas quis. Então, como você se acha um merda? E pensa que, se você a conquistou sem fazer nada, de forma natural, é melhor ainda, porque você a conquistou simplesmente sendo você. E se você conquistou uma vez, nada o impede de reconquistá-la."

Ele guardou isso. E, por mais que ele não tenha a fórmula certa para consertar os danos, ele vai seguir com esperança que possa desfazer. Se não conseguir, ele vai se lembrar de uma passagem de um livro que leu, um "amor que poderia ter sido, mas não foi e sabe que é a consequência da escolha que fez. O que tem consciência é de que não foi uma escolha uma escolha egoísta, e sim sabendo que, por tudo que ela significa, era a única maneira de ter a possibilidade de um futuro. Caso contrário, ele abria mão, por saber que ela nunca se igualaria aos casos de uma noite só. Não. Ela nunca chegaria a este nível de superficialidade. Ela era muito mais que isso. Ele só precisa aprender a respeitar as etapas. Parar de atropelar as vírgulas, de enxergá-las às vezes como ponto final, e de saber enxergar os recomeços depois dos verdadeiros pontos finais. E continuar. Continuar acreditando que pode mudar a situação, sempre. E ele vai. E os dois vão olhar pra trás e se lembrar da música que diz "E o quanto levou foi pr'eu merecer", e então "Ninguém dirá que é tarde demais, que é tão diferente assim".